Minha jornada com religião
Catolicismo (Soteco - Vila Velha/ES)
Eu não lembro exatamente como eu comecei a ir na igreja Católica, foi algo que veio de mim, pois quando eu era criança eu lembro que minha mãe por conta dos sofrimentos da vida dela, ela estava desiludida com religião.
Eu fui bem recebido na igreja Católica que ia em Vila Velha, fiz catequese, eu sentia muita essa energia cuidadora de avó lá dentro.
Na época eu lembro que tinha uma escassez de padre, os padres rodavam as igrejas e iam nessa igreja de tempos em tempos, então eu não tive muito contato com essa figura religiosa, tinha mais contato com as mulheres que eram ativas na comunidade. E como eu gosto de ficar perto de mulheres e dessa energia feminina, era um lugar que me sentia bem.
Mas minha mãe tinha se tornado evangélica depois de algum tempo, e crítica da igreja Católica e eu me sentia muito sozinho lá, e criança sente falta de ter momentos com família e crescia esse meu sentimento de solidão.
Como minha mãe era mãe solteira e minha única referência de família, e ela trabalhava 2-3 empregos + faculdade por um momento, quase não nos víamos e final de semana, ela ia numa igreja e eu em outra, vi que era uma situação que estava me incomodando.
Então, mesmo relutante, decidi ir na igreja Evangélica com ela.
Protestantismo - Batista tradicional (Glória - Vila Velha/ES)
Quando eu decidi sair da igreja Católica, para a maioria das pessoas de lá, eu senti como se tivesse morrido, o tratamento mudou bastante e não tive mais esse acolhimento, o que foi triste, pois se eu tivesse sentido que as portas estavam abertas, é um local que poderia ter voltado.
Uma amiga que era evangélica e o entorno com outras pessoas evangélicas a puxaram para a religião. Lá desde o começo nessa igreja eu não me senti bem, nem para ela iniciar num local mais humilde, pois éramos pobres. Ela decidiu ir numa igreja que tinha pessoas com mais dinheiro, não é que todo mundo da igreja fosse rico, mas era um região de comércio, então uma parcela da igreja era formada por comerciantes bem sucedidos, empresários, funcionários públicos, pessoas aposentadas em empregos bons, lembro que a igreja tinha uma pianista com brincos gigantes de diamantes para você sentir o nível. É horrível chegar num lugar assim, pois as pessoas se conhecem desde sempre, e eu me sentia como um "intruso", tanto pela questão econômica quanto pela posição social que carregava, filho de mãe solteira, eu sentia que eu era uma persona non grata, na época eu não entendia muito bem do porquê as coisas serem assim, mas hoje entendo o contexto, uma mulher negra solteira, com dois filhos, ela recém-convertida numa igreja onde parcela dos membros é de uma renda mais alta, que tiverem filhos depois do casamento, são casadas, é um grupo social que muitos membros têm esse contexto familiar mais estável e nós éramos muito diferentes disso. E minha mãe por vir de uma família muito caótica e instável, meio que se humilha (inconscientemente) para se encaixar nos locais e não percebe os sinais que não é bem-vinda.
Muitos evangélicos que nascerem nesse contexto, eles não são muito receptivos, eles tentam fazer um simulacro que são por conta da religião, que seguem os passos de Jesus na questão da caridade, humildade, mas a realidade é um pouco diferente da teoria, só ver com o passar dos anos, o que a igreja foi se tornando, tendo até área VIP no contexto atual e algumas tem regras de vestimentas muito rígidas, homens de ternos alinhados e mulheres com vestidos de qualidade, é um recado visual que se você for muito pobre, não é bem-vindo.
Então, eu senti mais essa questão do elitismo na igreja Evangélica, não que não tivesse pessoas ricas na igreja Católica que eu ia, mas não sentia essa energia de competição ou das pessoas quererem ficar se aparecendo.
Essa igreja Batista me traumatizou demais, mas foi mais na questão social, pois consegui ter noção quão pobre, sem família eu era. Tentei participar de um grupo de adolescentes, mas me senti sendo cortado pelos olhares e nem voltei.
Outra coisa que me chocou foi um evento na casa do Pastor, vi como eles tinham muito dinheiro (comparados a minha experiência de vida), era uma realidade que não estava acostumado, como não tinha Padre na igreja anterior que eu ia, então não tinha noção dessa questão de como os líderes religiosos absorvem a riqueza dos fiéis para si.
Nesse início da adolescência foi muito difícil para mim, já senti que estava ficando abalado espiritualmente, e igreja não era um lugar que eu tinha vontade de ir.
Protestantismo - Batista renovada (Centro - Montanha/ES)
O tempo foi passando, as coisas na vida foram acontecendo, e mudamos de cidade por conta da influência de outra amiga da minha mãe (confirmando a teoria de como minha mãe é influenciada, e agora ela nem é tão amiga dessa pessoa), ela passou num concurso e fomos morar numa cidade do interior, essa igreja quem comandava era o pai dessa amiga.
No começo eu sentia que o pessoal era mais humilde, no sentido de dinheiro mesmo, as pessoas foram mais receptivas, uma jovem veio até mim na escola e se apresentou, que eu era bem-vindo, uma fofa, não nos tornamos amigos nem nada, mas foi legal a atitude.
Mas eu reparei mais algumas coisas nesse momento da vida e na minha adolescência eu comecei a pesquisar mais sobre espitualidade e questionar mais as coisas. Agora, depois de adulto, algumas peças se encaixaram melhor na minha cabeça e percebi que tanto nessa igreja como em outras, famílias com mais dinheiro, tem mais destaque e são tratadas melhores pela liderança religiosa. Eu percebo, na minha experiência, que na igreja Evangélica comparada com a igreja Católica, tem mais essa briga de egos e essa disputa de quem vai ter mais destaque.
Mas as coisas mudaram para pior nessa igreja, minha mãe tinha essa assistência dessa amiga lá, mas do nada, algumas pessoas se sentiram ameaçadas pela minha mãe, e o fato dela ser uma mulher solteira com dois filhos, pesou negativamente nossa experiência (de novo). Minha mãe tem seus defeitos, mas ela é uma mulher muito trabalhadora, esforçada, excelente caráter, e algumas pessoas começaram a questionar a reputação dela, por coisas extremamentes ridículas. E ela influenciada por essa igreja, contratou um serviço de um "irmão" da igreja que executou um péssimo trabalho e ela ficou ainda mais odiada quando pediu seus direitos, sendo que eu adolescente, pensando mais racionalmente que um adulto sabia que isso ia ter consequência negativas e realmente teve, problemas que ecoam até hoje.
Foi um período da minha vida que eu queria me distanciar de igreja, mas foi complicado, pois minha mãe queria me obrigar a seguir a religião, sendo que eu não estava me sentido conectado. Falei que não iria mais, ela começou a me tratar mal, então eu ir na igreja se tornou algo mais político, para eu ter paz dentro de casa e fazer a boa vizinhança. Provavelmente outras pessoas passam por isso, dos pais obrigarem a ir na igreja, dependendo do caso, melhor não comprar essa guerra e vão, quando vocês tiverem independência financeira e sair da casa dos pais, vocês desvinculam.
Protestantismo - Presbitariana (Goiabeiras - Vitória/ES)
Começar faculdade em Vitória foi um alívio para mim, me desvinculei dessa igreja de Montanha e de quase todo mundo que ia lá. Mas ainda sim, vinha essa pressão da minha mãe dessa questão de igreja. Então decidi ir numa igreja Presbiteriana perto da minha casa, essa igreja era menor, não tinha muitos membros, mas senti que o clima era melhor, fui bem recebido, mas confesso que eu já não tinha muita fé no Cristianismo, sinceramente eu ia raramente nessa igreja, mas falava que ia para minha mãe não ficar me perturbando. Meus relacionamentos lá foram bem superficiais, então não tive nenhum drama. Todos eram simpáticos comigo, o pastor tinha uma energia positiva, se eu tivesse fé e menos pensamento crítico, pois eu sou uma pessoa que questiona muito as coisas, eu sentia que teria me adaptado e firmado lá.
Todavia, eu vi acontecendo uma coisa, que eu senti no meu coração que era muito pesado e fui algo que senti que foi minha ruptura com a igreja. Lá teve um pastor convidado que a missão dele era converter uma comunidade indígena na cidade de Aracruz/ES, aí ele mostrou como foi o processo de conversão dessas pessoas, me senti vendo uma cena parecida como se eu tivesse vendo a dominação Europeia sob as comunidades ameríndias no início da colonização ou escravos açoitados por um capataz. Algumas mulheres da comunidade indígena foram com ele, todavia elas me passaram uma energia de tristeza, estavam cabisbaixas, exibidas como uma espécie de trófeu, aquilo foi muito pesado para mim. Aí refleti internamente e pensei, eu realmente quero fazer parte disso?
Umbanda (Vila Velha e Vitória/ES)
Fui convidado uma vez para ir num encontro de Umbanda, posso fazer um post para contar mais em detalhes essa experiência, a primeira vez que fui, foi algo importante para a minha espiritualidade, pois espiritualidade para mim era apenas teorias até aquele momento, mas lá nessa gira, eu tive uma experiência física, eu consegui sentir que o médium realmente estava passando a mensagem do espírito.
Mas depois aconteceu uma coisa chata, eu vi uma pessoa que estava lá, a encontrei na faculdade, fui cumprimentá-la, por questão de educação, e eu fui ignorado. Possivelmente a pessoa tinha vergonha de estar lá, sei lá, não queria ficar associado a mim e eu tocar no tema. Fiquei muito chateado e não voltei mais, não faz sentido eu ficar num local com pessoas que minha presença incomoda e não senti que era um local que eu iria fazer conexões positivas.
Em outro momento, uma colega minha me convidou para ir num centro em Vitória, era algo mais "Umbranca"/elitizado, lá eu não senti essa energia como a minha primeira experiência. Foi o mais de sempre que eu estava acostumado com religião, as pessoas seguem uma agenda do encontro e vão embora.
Sem religião
Com essas experiências eu senti que religião não é algo para mim, não me conectei com as pessoas, não me sinto bem num local com regras que eu não posso questionar e que eu vejo que não fazem sentido. Mesmo indo na Umbanda e tendo uma "prova" mais concreta do mundo espiritual, não senti que esse era meu caminho.
Então decidi estudar espiritualidade por conta própria, e não negando a racionalidade do mundo físico, fatos como evolução das espécies e outros fatos do mundo material e concreto que muitas religiões tentam negar.
Eu sei que se estou num local que não posso questionar, sei que esse local não é para mim. Eu sinto que não ter religião tirou um peso das minhas costas e me sinto melhor asism.
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